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30 de maio de 2009

O Aparelho ideológico da Comunicação

Com o intuito de contribuir com o debate a respeito da Conferencia de Comunicação é que resolvi elaborar este texto, dividindo-o em cinco postagens. As ultimas leituras que fiz através da sociologia critica alem do convívio com demais profissionais e estudantes de comunicação deram-me a motivação necessária, inclusive agradeço a duas estudantes de jornalismo aqui da UFMA que com suas inquietações ajudaram-me, a saber, de que forma eu deveria a iniciar esta breve analise que possui mais caráter de demonstrar alguns apontamentos que em hipótese alguma podem ser esquecidos.
Gostaria de ressaltar também que a simplicidade do texto não o faz de modo algum superficial, mas sim de caráter popular. Alem de mostrar uma determinada dimensão pouco vezes colocada em evidencia. Fundamentalmente se quer aqui discutir alternativas de mudanças.
Talvez esteja no aparelho ideológico da comunicação o segredo de existir uma sociedade com tantas contradições e injustiças e não acontecer uma transformação rápida e profunda como era de se esperar. O chamado “quarto poder” parece ser o instrumento mais importante de resistência a mudança e de manutenção da exploração e domínio do homem sobre o homem.

A comunicação constrói a realidade:

Ou seja, uma coisa só passa a existir no momento em que é comunicada. Por exemplo, o genocídio na faixa de gaza ainda nos é informado apenas por que felizmente existe a internet, do contrario nada saberíamos, e, portanto independentemente de quantas crianças morrem vitimas de bombardeio o seu Zé lá da esquina não fica sabendo e pra ele, logo não existe guerra. O lado ruim de tudo isso é que perdemos nesse processo a capacidade de nos indignar por que não obtemos a informação necessária para fazê-lo. Outro exemplo se dá quando determinada emissora resolve graças a somas vultosas em dinheiro ou por ser de propriedade de algum político não esclarecer a população os reais motivos de um determinado problema, por que se caso for noticiada ferirá os interesses individuais e eleitoreiros do político financiandor-proprietario da emissora. Aqui no Maranhão o nível desce ainda mais quando vemos apresentadores de vários programas abertamente defenderem apenas a visão do proprietário particular ou do político dono, escamoteando assim a opinião popular.
A saída para esse problema se dará apenas quando a hegemonia for quebrada, ou seja , quando a população puder ter seus canais de TV , radio, jornais impressos de forma livre e organizada. O poder publico deve facilitar a inclusão de novas rádios comunitários e emissoras de TV que não estejam atreladas apenas ao interesse da lucratividade e do consumismo, por exemplo.
Portanto a comunicação ao construir a realidade não o faz de maneira neutra, asséptica. Ela se faz através de um determinado ponto de vista e sempre com uma dimensão valorativa, sempre embalada com o cheiro de “bem-mal”, de forma maniqueísta, e finalmente montando uma agenda de discussão. As pesquisas mostram que aproximadamente 80% de tudo que as pessoas falam na rua, em casa, no trabalho, etc., são assuntos que foram apresentados pelos meios de comunicação, com isso percebemos que a força da mídia não está apenas no que ela apresenta mais no que ela não apresenta também. Isso significa que pode-se deixar de fora da discussão temas que poderiam a vir incomodar determinados grupos comercias ou governos. Exemplo: Reforma Agrária, descriminalização da maconha etc.

Quem tem a comunicação tem o poder:

Quem detém o meio de comunicação constrói a realidade a partir de seus interesses, justamente para poder se garantir no poder.
Por exemplo, os que detêm a comunicação para poderem estar por cima começam a dizer que vale mais quem fala, quem estuda. São geralmente os donos dos meios de produção que para permanecer sempre com vantagem escondem que os que trabalham são os que produzem as riquezas e chegam até mesmo a definir os outros como sendo menos importantes, mais ignorantes, menos honestos e, portanto ate piores. Um exemplo são os programas policiais aqui de Imperatriz, neles as pessoas mais pobres são sempre colocadas como inferiores e que, portanto só poderiam aparecer em programas policiais, ao contrario das colunas sociais, onde o empresário ao dar uma festa de 15 anos para filha no valor de 300,00 reais é visto como superior melhor, mais bonito etc.
No fundo, tudo isso é feito para manter toda a população pobre e trabalhadora dominada ate na alma, pois quando alguém já se considera inferior, nunca vai questionar os de cima. Quando alguém está convencido de que vale menos ou não presta nunca vai procurar crescer, procurar seus direitos. É isso que querem os que se aproveitam dos debaixo.
No Maranhão, assim como em todo resto do Brasil, a comunicação está nas mãos de pouquíssimas pessoas. Digo os meios de comunicação de massa, como a Rede Globo por exemplo. Alem disso verificamos que:
a) Se o capital não pode possuir o meio ele controla o conteúdo. As noticias, os filmes, os enlatados para a TV vêem em grande parte de fora.
b) Se não tem o meio e nem o conteúdo, controla-se a divulgação e distribuição desse conteúdo. As agencias de noticias, as distribuidoras de filmes e material de comunicação possuem grande controle. Alem da publicidade e propaganda que só favorecem os meios que estiverem de acordo com sua filosofia.
Com certeza há mais elementos que poderia ser incorporados a essa analise e talvez alguém ache isso tudo aqui um tanto quanto incompleto. Mas não existem assuntos discutidos que são terminados e completos, tudo ainda está por ser finalizado, meu objetivo é delinear alguns tópicos com palavras claras e simples, dizendo o que em geral não se diz, pensando sempre nos grupos de ação, constituídos por pessoas simples, de boa vontade, comprometidos com a maioria do povo maranhense. O que não se pode deixar de perceber é o caráter controlador que temos atualmente da mídia. Tanto de fora, quanto de dentro, e talvez alguém ache que diante dessas situações não exista saída.
A resposta é: existe!
Discutiremos isso adiante, por hora gostaria de discorrer sobre as noticias e suas belas mentiras.

Noticias: A mídia como a gente vê e a mídia como ela realmente é

É característico dos menos esclarecidos confiarem em tudo aquilo que é dito no radio e televisão ou lido no jornal. Ate mesmo entre os mais “estudados” e nos meios até acadêmicos se preserva uma cultura de acreditar no noticiário oficial, é preciso, pois, um cuidado enorme e um espírito critico muito aguçado para não se deixar envolver pelas falsas noticias. A preservação da liberdade do sujeito também passa pela forma com que ela se comporta em relação a noticia.
Vejamos alguns pontos:
-- A grande maioria acha ser verdadeira tudo aquilo que é dito no jornal. É uma minoria que se coloca com uma visão mais critica.
--Criticar e julgar pressupõe saber ouvir os dois lados. As pessoas ingênuas por não poderem ter como criticar acabam servindo de massa de manobra.
Com exemplo gostaria de expor um caso recente: em uma passeata que fizemos recentemente em luta pela AUTONOMIA da UEMA os meios de comunicação por lá estiveram, fizeram a cobertura, e nos em nossas falas tentávamos deixar bem às claras os reais motivos do ato. Ao assistir o primeiro noticiário de uma conhecida emissora, esta dizia que os alunos da UEMA reclamavam por falta de “aulas” e outro noticioso dizia que nós reivindicávamos um restaurante universitário. Ainda num terceiro jornal se dizia que estávamos em estado de greve. Pelo visto não sabiam sequer do que falávamos os chamados jornalistas, e o governo em resposta disse não saber de nada do que estava acontecendo.
Claro que em uma manifestação dessa natureza aparecem vários aspectos, o problema é a forma com que é jogado no noticiário, de forma errônea, conturbada, e ainda como sendo um transtorno a sociedade um bando de alunos baderneiros que mais faziam barulho do que realmente estudar. Pelo visto tudo aquilo que tem um caráter mais contestador é colocado em segundo plano pelas emissoras, fica sempre o lado mais “folclórico” da coisa, mais exótico, do que verdadeiramente a essência da coisa. Alem disso uma matéria de duas horas é condensada em 120 segundos e aí quem decide o que vai ou não pro ar? São eles, segundo seus interesses ou nós que fazemos a noticia? È o chamado mecanismo da seleção.
Nada foi dito sobre o fato de que uma Universidade deve gerir seus próprios recursos, que o governo estadual não gosta da UEMA, pois existem vários financiamentos desviados etc. etc.etc.etc.
Alem disso temos outro fato estarrecedor: o mecanismo da combinação. Este consiste em colocar duas coisas que não tem nada a ver juntas, e pelo fato de estarem juntas as pessoas vão pensar que se relacionam. É o caso de terem colocado nossa matéria junto com uma de briga de bar, e de tanto fazerem isso acabam controlando a opinião publica para verem de forma negativa qualquer tipo de manifestação de estudantes. Outro fato ridículo: o camarada que apresenta o jornal tece comentários, geralmente expondo os pontos de vista do governo Estadual, como se este respondesse: tudo bem, não precisam se preocupar é só mais um transtorno que vai passar. O mesmo fazem quando noticiam qualquer coisa acerca das ações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST.

Soluções: Por uma comunicação alternativa.

Ninguém consegue dominar todo mundo o tempo todo, nem mentir todo o tempo. Todas as discussões e processos são criados historicamente, isso abre precedentes sem igual no rumo das coisas. A realidade e suas contradições permitem que a própria relativização das categorias e pensamentos aconteça, mesmo que se faça de tudo para evitar, “o novo sempre vem”. A comunicação como um dos direitos do ser humano e a consciência dessa relatividade histórica é a condição essencial para qualquer perspectiva de mudança, aliadas sempre a um pensamento radical, livre, no sentido de radicalidade enquanto busca da “raiz” do problema.
Direito a comunicação significa não só a liberdade de se mudar o canal de TV, mas principalmente o direito de ouvir a própria voz, escrever seu pensamento, ter, portanto uma comunicação ativa e não apenas passiva.
Para isso temos que começar desde já a educar nossas crianças a serem sujeitos da comunicação, e não apenas autômatos, robôs incapazes de ler sequer a realidade. E possibilitar cada vez mais nosso povo de ter acesso aos instrumentos de comunicação social, para que escreva, fale, transmita seja ativo na busca de um mundo melhor. O exercício critico da comunicação deve ser uma busca constante, o dialogo com a realidade possibilita sujeitos mais conscientes, mais “antenados”, menos alienados, sabedores de sua condição e da forma melhor de poder mudá-la.
Reiteramos, portanto como imprescindível:
a) A necessidade de quebra imediata do monopólio nas concessões das transmissoras de radio e televisão.
b) A necessidade imediata de subsidiar mecanismos de rádios-comunitarias em diversas comunidades.
c) Constituição de núcleos propagadores do audiovisual que visem à população. Seja na parte documental, seja na parte ficcional.
d) Contra o projeto do senador Azeredo (PSDB-MG) que quer criminalizar os usuários da internet.
e) Enfim...
Enfim, no decorrer das discussões outras propostas deverão aparecer por ora tomo estas como iniciais e esperamos que a partir desse artigo novos debates sejam abertos.
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