EDUARDO GALEANO, UM DOS GRANDES ESCRITORES LATINO AMERICANOS


Ao ficar sabendo da morte do escritor uruguaio Eduardo Galeano, nesta segunda, vítima de câncer, resolvi republicar este meu texto, de fevereiro de 2008, ainda muito atual; 

TEMOS GUARDADO UM SILÊNCIO BASTANTE PARECIDO COM A ESTUPIDEZ 

A afirmação do titulo acima é a frase que abre a obra mais famosa do Jornalista Eduardo Galeano: “As veias abertas da América Latina”. É a "Proclamação insurrecional da Junta Tuitiva na cidade de La Paz, em 16 de julho de 1819". 

Publicado em 1971, "Veias abertas.." é um livro que pelo seu caráter contestador e critico foi proibido em diversos países durante seus respectivos regimes militares. 

O teor do texto expõe através de uma análise brilhante e arguta, os diversos aspectos históricos da dominação colonial da América Latina.

Toda a exploração e diversos outros fatores que causaram o empobrecimento dessas nações ditas "latinas" são muito bem minuciadas através de dados históricos e sociológicos. 

Eis aí o principal motivo que as elites vetassem sua publicação. Essas mesmas elites, que ainda estão com muitos representantes no poder, manifestam descontentamento a qualquer tipo de tentativa de mudança no paradigma social dessas populações historicamente roubadas, sempre através de sua impressa comprada.

A história não para. 

O Livro de Galeano foi recentemente presenteado ao presidente dos USA, Barack Obama, por Hugo Chavez, coisa impensável até meados dos anos 80 - afinal um trabalho “subversivo” de caráter “perigoso”, dado de presente a um chefe de uma nação que financiou as ditaduras militares para que estas torturassem quem quer que ousasse mostrar a população sua pobreza. Por aqui também temos as nossas “Veias Abertas.”

O livro do padre beneditino Victor Asselin, chamado de “Grilagem nas terras do Carajás” foi editado em 1986 pela Editoras Vozes, de São Paulo, e mostrava a dura realidade dos primeiros camponeses do Bico do Papagaio, e da região Tocantina nas décadas passadas. 

Através de uma análise sociológica Asselin vai mostrando o processo como as autoridades na época, décadas de 60 e 70, vão expulsando da terra milhares de trabalhadores rurais, utilizando assassinatos, atentados e demais outros tipos de violência - os donos do poder com seus capangas acabariam por formar um quadro de terror na região. 

O livro acabou sendo proibido. Asselin não pôde sequer ficar para divulgá-lo. Teve que voltar às pressas para São Paulo, para não morrer assim como outros que levantaram suas vozes para as injustiças sociais na região, como por exemplo, Padre Josimo. 

Dizem que grande parte das edições ficaram em Fortaleza, foram retidas lá, para que não chegassem à população, grande desclarecida de todas nesse processo.  

Fazendo um paralelo entre as duas obras, percebemos que ambas tratam de aspectos semelhantes. Ambas trazem a discussão da injustiça social e seu caráter histórico para explicar o tecido social, os problemas e as lutas de nosso povo. Isso por que faz muito tempo que a grilagem de terras (a fraude da posse da terra por meio de documentos falsos) foi inaugurada no Brasil. 

No dia em que chegaram os portugueses, no dia 21 de abril de 1500, o país que viria a ser chamado de Brasil perdeu a autonomia sobre seu território e iniciou-se o processo de grilagem. 

De lá pra cá os povos nativos com seu sistema sócio-politico-econômico teve sua historia escrita sob humilhação, sangue e luta, enquanto que para os colonizadores, o poder. 

Claro que o Brasil hoje apresenta uma configuração muito diferente, mas parece que essa terra foi e é a encruzilhada no globo terrestre, onde se encontraram “os homens sem direito de o ser” do mundo africano, indígena e latino-americano e onde se articularam as forças econômicas e culturais do mundo ocidental, que constituem hoje sua elite dominante. 

O livro de Asselin estará sendo reeditado muitas vezes, e assim como o de Galeano sendo presenteando, espero que para apenas recordar um triste passado. 

Para finalizar este texto, gostaria de ressaltar que a frase de Galeano está mais atual ainda quando percebemos os escândalos no Senado Federal e a falta de uma mobilização popular para expulsar esses facínoras do poder. 

Vivemos um Estado de exceção que parece ser por enquanto, via de regra.

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