Antes de fazer a passagem para o plano superior, o historiador Adalberto Franklin nos deixou talvez sua obra mais vigorosa. O livro "Manoel Conceição: sobrevivente do Brasil" (Ética Editora, 348 páginas) traz a biografia do líder camponês do interior do Maranhão, que junto com demais companheiros fundou vários sindicatos rurais e mostrou ser possível resistir as injustiças do latifúndio em plena ditadura militar.
("Esta terra é nossa" só seria publicado no Brasil em 1980, pela editora Vozes).
A obra é fundamental para se conhecer o Maranhão profundo onde a conjuntura política da época é apresentada com o rigor detalhado e personagens como José Sarney, governador do Maranhão, são revelados em toda a sua sordidez e contradições. Consta no livro a responsabilidade do velho oligarca no sofrimento de Manoel e a posterior tentativa de comprá-lo oferendo-lhe regalias. Manoel prontamente responde-lhe "Minha perna é minha classe" !
Adalberto certa vez disse-me que iria escrever a segunda parte do livro, dando detalhes sobre a época que Manoel morou fora do Brasil, onde viajou para várias partes do mundo, denunciando o regime civil-militar do Brasil e se encontrou com vários lideres socialistas. Sua casa era ponto de encontro de outros brasileiros, sindicalistas, intelectuais artistas, políticos. Germinava ali o que seria o então Partido dos Trabalhadores. Infelizmente corremos o risco de não termos esta segunda parte. O autor não teve tempo de publicar e o biografado em idade avançada já não guarda muito bem as lembranças.
A saga de "Manoel Conceição: sobrevivente do Brasil" é um misto de narrativa histórica e drama realista envolventes. Poderia tranquilamente virar um grande longa-metragem de ação pelo ritmo que passa. Uma triste história como foi a de tantos outros brasileiros e maranhenses mais com um grande final para aqueles que acreditam na justiça. O legado de Manoel jamais será esquecido. Já seus algozes estão no lixo da história.









